Søren Kierkegaard e o Sentido da Vida
ARTIGO
A busca pelo sentido da vida é uma das questões mais profundas e persistentes da existência humana. Entre os pensadores que se dedicaram a esse mistério, destaca-se Søren Kierkegaard, filósofo dinamarquês do século XIX, cuja abordagem singular continua a inspirar teólogos, psicólogos e escritores até hoje.
Nascido em 5 de maio de 1813, em Copenhague, Kierkegaard foi filho de Michael Kierkegaard, um homem profundamente religioso e melancólico. A infância de Søren Kierkegaard foi marcada por perdas dolorosas: cinco de seus seis irmãos morreram ainda jovens. Essa atmosfera de dor e introspecção moldou seu pensamento desde cedo. Formado em Teologia e Filosofia pela Universidade de Copenhague, Kierkegaard herdou uma fortuna após a morte do pai, o que lhe permitiu dedicar-se integralmente à escrita e à reflexão filosófica.
Sua vida pessoal também foi marcada por renúncia e entre os episódios mais comoventes da vida de Kierkegaard está sua relação com Regine Olsen, jovem por quem ele se apaixonou profundamente. O noivado entre os dois, iniciado em 1840, foi rompido por Soren apenas um ano depois — não por falta de amor, mas por uma convicção espiritual que o levou a acreditar que sua missão exigia renúncia pessoal.
Regine, então com 19 anos, ficou devastada. Kierkegaard também sofreu intensamente com a separação, como revelam seus diários e obras posteriores. Em Temor e Tremor, por exemplo, ele compara sua decisão ao sacrifício de Abraão, sugerindo que o amor verdadeiro, às vezes, exige entrega total — até mesmo a renúncia do próprio objeto amado. “A maior dor é amar e não poder permanecer junto.” — Kierkegaard, em reflexões sobre Regine
Regine Olsen seguiu sua vida e casou-se com Johan Frederik Schlegel, um respeitado funcionário público. Mesmo após o casamento, Kierkegaard continuou a escrever sobre ela, referindo-se a Regine como símbolo de um amor impossível, mas eterno. A presença dela em sua obra é discreta, mas constante — uma lembrança viva do que foi sacrificado em nome da fé e da vocação. Ambos estão enterrados no mesmo cemitério em Copenhague, separados por poucos metros — como se a história de amor que não pôde se concretizar na vida encontrasse repouso na eternidade.
A Filosofia do Sentido. Considerado o pai do existencialismo — muito antes de Sartre ou Heidegger — Kierkegaard defendia que o sentido da vida não é algo objetivo ou universal, mas uma experiência subjetiva e existencial. Para ele, a verdade não está nos sistemas filosóficos abstratos, mas na vivência pessoal, marcada por angústia, liberdade e fé. Sua proposta se organiza em três estágios da existência:
- Estético: O indivíduo busca prazer, beleza e distração, evitando o sofrimento. No entanto, essa busca leva ao tédio e ao desespero, revelando um sentido ilusório e superficial.
- Ético: Aqui, o sujeito assume responsabilidades morais e sociais. A vida ganha profundidade por meio do dever e da consciência ética, mas ainda permanece limitada pela finitude humana.
- Religioso: O estágio mais elevado, segundo Kierkegaard, exige o “salto de fé” — uma entrega total a Deus, mesmo diante do paradoxo e da ausência de garantias racionais. A fé transcende a ética e revela um sentido eterno, vivido de forma subjetiva e íntima.
Angústia, Desespero e Fé. Para Kierkegaard, a angústia é uma condição existencial inevitável, fruto da liberdade humana e da possibilidade de escolha. O desespero surge quando o indivíduo se desconecta de seu verdadeiro eu — aquele que se relaciona com o eterno. Enfrentar essa angústia é essencial para alcançar o estágio religioso e, com ele, o sentido da vida.
O exemplo de Abraão, apresentado em Temor e Tremor, ilustra esse salto de fé: uma decisão que desafia a lógica e a moral, mas que revela uma relação direta com Deus. Kierkegaard argumenta que o sentido da vida não pode ser provado ou explicado — ele deve ser vivido. A fé, portanto, é a única resposta possível à angústia existencial.
Legado e Inspiração. Crítico da Igreja Luterana institucionalizada, Kierkegaard defendia uma fé individual e autêntica, vivida com paixão e coragem. Sua obra continua a ecoar nas reflexões sobre autenticidade, liberdade e espiritualidade. Como ele mesmo escreveu: “A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas só pode ser vivida olhando-se para frente.”
Referências Bibliográficas
Alves Cruz, W. A. (2021). O sentido da vida na filosofia de Søren Kierkegaard. Revista Paranaense de Filosofia, 1(1), 92–104.
Ericksen, L. (2019). Transições dos estádios da vida em Kierkegaard e suas perspectivas teológicas. Revista Veritas, PUCRS.
Cruz, W. A. (2023). O sentido da vida na filosofia de Søren Kierkegaard. ResearchGate.








