Ouvir antes de responder
Por V. A. Duarte, pastor batista, professor, escritor e mestre em Divindade
⁹ Meus amados irmãos, tenham isto em mente: sejam todos prontos para ouvir, tardios para falar e tardios para irar-se, Tiago 1:19 | NVI
Na semana passada, refletimos sobre o chamado dos cristãos para serem pontes, e não trincheiras, em um tempo marcado pela polarização. Dissemos que discordar não precisa significar inimizar-se. Mas surge uma pergunta prática: como construir pontes com quem pensa diferente de nós?
A resposta começa em um lugar que poucos querem visitar: a escuta.
Ouvir parece simples, mas talvez seja uma das práticas mais raras da nossa época. Vivemos cercados de vozes, opiniões, vídeos, manchetes e comentários. Todo mundo quer falar; poucos querem compreender. Nas redes sociais, respondemos antes de ler até o fim. Nas conversas, preparamos a réplica enquanto o outro ainda está falando. Na igreja, às vezes confundimos ouvir com esperar a nossa vez de dar a “resposta certa”.
Tiago nos oferece um conselho que parece ter sido escrito para os dias de hoje: “Prestem atenção, falem pouco e sejam lentos para se irar” (Tiago 1.19). A ordem é significativa. Primeiro vem a escuta; depois, a fala; por último, o controle da ira. Quando invertemos essa sequência, falamos sem pensar, nos irritamos com facilidade e deixamos de ouvir por completo.
Ouvir alguém não significa concordar automaticamente com tudo o que a pessoa diz. Significa reconhecer que ela foi feita à imagem de Deus, que suas experiências têm peso e que suas palavras merecem atenção. A escuta é uma forma de honra. Quando ouvimos de verdade, dizemos, sem usar palavras: “Você importa para mim, mesmo que eu não pense como você.”
Jesus foi mestre nisso. Ele fazia perguntas, dava atenção às pessoas e se aproximava daqueles que os outros evitavam. Com Nicodemos, um líder religioso, com a mulher samaritana, alvo de preconceitos, e com Zaqueu, o cobrador de impostos odiado pela comunidade, Jesus não começou condenando. Ele se aproximou, conversou e revelou a verdade de dentro de um relacionamento, e não do alto de um tribunal.
Isso não significa que Jesus evitasse a verdade. Ele a dizia com clareza, inclusive quando incomodava. Mas nunca a usou como desculpa para humilhar, ridicularizar ou destruir alguém. Em Jesus, verdade e amor não competiam: caminhavam juntos.
Talvez o maior desafio do diálogo cristão não seja encontrar argumentos melhores, mas desenvolver um coração mais disposto a ouvir. Antes de perguntar “como eu refuto isso?”, podemos perguntar: “O que essa pessoa viveu que a levou a pensar assim? O que ela teme? O que ela valoriza? Onde posso reconhecer algo verdadeiro, mesmo sem concordar com tudo?”
A escuta não enfraquece a fé; ela a torna mais madura. Quem tem convicções firmes não precisa ter medo de ouvir o outro. Pelo contrário: a segurança em Cristo nos liberta da necessidade de vencer todas as conversas. Podemos defender a verdade sem transformar cada diferença em guerra.
Há uma pergunta que pode mudar muitas relações: quando foi a última vez que você ouviu alguém até o fim, sem interromper, sem julgar e sem preparar a resposta enquanto a pessoa falava?
A ponte que falta entre nós e o próximo pode começar exatamente aí: em aprender a ouvir como Cristo ouviu.
Para refletir: nesta semana, escolha uma pessoa com quem você discorda. Antes de tentar convencê-la, faça uma pergunta sincera e ouça a resposta com atenção.
Deus abençoe você. Na próxima semana, tem mais!








