Fé cristã e diálogo em tempos de polarização
Por V. A. Duarte, pastor batista, professor, escritor e mestre em Divindade
Um mundo dividido, uma fé chamada à ponte
"Se possível, quanto depender de vocês, vivam em paz com todos." (Romanos 12.18)
Vivemos tempos em que discordar virou sinônimo de inimizade. Nas redes sociais, nas famílias e até nas comunidades de fé, as pessoas se dividem em trincheiras. Quem pensa diferente deixa de ser alguém para ser ouvido e passa a ser alguém para ser confrontado e derrotado. Uma simples conversa à mesa, que antes terminava em café, hoje termina em silêncio constrangido, em bloqueio nas redes ou em amizades desfeitas.
A polarização não é apenas um fenômeno político. Ela é um fenômeno do coração. Quando a identidade de uma pessoa se confunde com o grupo a que pertence, qualquer crítica ao grupo é sentida como ataque pessoal. Aos poucos, trocamos a escuta pelo rótulo, a pergunta pela acusação e o argumento pelo grito. Os algoritmos das redes agravam o quadro: mostram-nos o que já pensamos, aproximam-nos dos que concordam conosco e nos convencem de que o outro lado é composto por pessoas más, ignorantes ou perigosas. Perde-se a nuance, e com ela perde-se a humanidade do próximo.
E nós, cristãos, não estamos imunes. Muitas vezes repetimos o espírito da época com versículos na boca. Usamos a Bíblia como arma, e não como espelho; confundimos zelo com agressividade e convicção com arrogância. Há quem se afaste da comunhão com os irmãos na igreja não por rejeitar Jesus, mas por se cansar da hostilidade que encontra entre os que dizem segui-lo.
Esquecemos que a fé cristã nasceu em um mundo igualmente dividido: judeus e gentios, escravos e livres, ricos e pobres, cidadãos romanos e povos subjugados. As tensões entre esses grupos eram profundas e ameaçavam dilacerar as primeiras comunidades. Foi nesse cenário que Paulo escreveu que em Cristo "derrubou-se o muro de separação" (Efésios 2.14). O evangelho não anulou as diferenças, mas ensinou que elas não precisam ser motivo de inimizade. A cruz tornou-se o ponto de encontro de quem antes vivia em lados opostos.
Por isso, a pergunta que abre esta série é: que testemunho damos ao mundo quando nos comportamos como todos os outros? Jesus disse que o mundo reconheceria seus discípulos pelo amor mútuo (João 13.35), e não pela força de seus argumentos nem pelo volume de suas opiniões. Se o amor é a marca registrada do discípulo de Jesus Cristo, uma fé que só sabe gritar, xingar ou excluir perdeu algo essencial da própria mensagem.
Isso não significa relativizar a verdade nem renunciar às convicções. Significa lembrar que o modo como defendemos a verdade também comunica o evangelho. Somos chamados a ser pontes, e não trincheiras: pessoas capazes de sustentar o que creem sem destruir quem pensa diferente.
Para refletir: Quando foi a última vez que você ouviu alguém que pensa diferente de você sem preparar a resposta enquanto ele falava?
Deus te abençoe. Semana que vem tem mais!








