O futebol que mobiliza multidões também mudou protocolos de emergência no Brasil

Casos de parada cardíaca dentro e fora de campo reforçam a importância de desfibriladores, treinamento e resposta rápida

O futebol que mobiliza multidões também mudou protocolos de emergência no Brasil

O futebol costuma ser associado à emoção, à paixão das torcidas e ao desempenho dos atletas. Mas, nas últimas duas décadas, também se tornou um ponto de virada para a discussão sobre atendimento de emergência no Brasil.

A morte do zagueiro Serginho, do São Caetano, em 2004, devido a  uma parada cardiorrespiratória durante uma partida contra o São Paulo, no Morumbi, impulsionou mudanças importantes nos protocolos do futebol brasileiro, incluindo a exigência de desfibriladores portáteis nos estádios. O episódio mostrou que, em uma parada cardíaca, o que acontece nos primeiros minutos pode definir as chances de sobrevivência e o risco de sequelas, porém, de uma fatalidade muitas vidas foram salvas em várias regiões do Brasil. 

Após a morte do jogador Serginho em 2004, diversos estados e municípios brasileiros aceleraram a criação de leis de acesso público à desfibrilação. Entre os pioneiros destacaram-se a cidade de São Paulo(SP), Campo Grande (MS) e também o estado de Mato Grosso do Sul. Em 2005, eles passaram a exigir a disponibilização do Desfibrilador Externo Automáticos (DEA) e treinamento em suporte básico de vida em locais que tenham grande circulação de pessoas.

Vinte anos depois da morte de Serginho, outro caso reacendeu o debate. Em 2024, o uruguaio Juan Izquierdo, do Nacional, sofreu um mal súbito no mesmo estádio, durante partida da Copa Libertadores. O episódio voltou a chamar atenção para a importância do diagnóstico rápido, da desfibrilação precoce e do treinamento das equipes de resposta.

O alerta, no entanto, não se restringe aos jogadores. No último dia 10, um torcedor português de 77 anos morreu após sofrer uma parada cardíaca no Estádio Dr. Magalhães Pessoa, em Leiria, cerca de 45 minutos antes do amistoso entre Portugal e Nigéria. O caso reforça que estádios e centros esportivos reúnem pessoas de diferentes idades e perfis de saúde, tornando essencial a presença de protocolos claros, equipes treinadas e equipamentos acessíveis.

Segundo a médica Selma Guimarães Ferreira Medeiros, instrutora dos cursos de ACLS (Suporte Avançado de Vida Cardiovascular) da CoreHelp, a parada cardíaca súbita pode ocorrer mesmo em pessoas aparentemente saudáveis, inclusive atletas.

“Algumas doenças do coração, alterações genéticas e distúrbios elétricos cardíacos podem permanecer sem sintomas por muitos anos e não serem identificados em exames de rotina”, explica.

Durante exercícios intensos, o aumento da adrenalina e da demanda do coração pode desencadear arritmias graves em pessoas predispostas. Apesar de muitos episódios parecerem repentinos, sintomas como desmaios, tonturas recorrentes, palpitações, taquicardia, falta de ar desproporcional ao esforço e aperto no peito devem ser investigados.

“Todos esses sinais são um alerta para uma investigação clínica cardiovascular. Porém, muitos atletas interpretam esses sintomas como consequência do treinamento intenso, cansaço ou estresse pré-campeonato”, observa doutora Selma.

A médica explica que, em pessoas jovens, as causas mais frequentes estão ligadas a doenças hereditárias, como cardiomiopatias e síndromes arrítmicas genéticas. Após os 35 anos, a principal causa passa a ser a doença arterial coronariana. O risco aumenta quando existe uma condição silenciosa, ainda não diagnosticada.

“Quando existe uma doença cardíaca não diagnosticada, o exercício intenso pode atuar como um gatilho para arritmias graves e eventos súbitos. Por isso é fundamental a avaliação cardiovascular pré-participação esportiva”, destaca.

O que fazer quando uma parada ocorre em campo

Em uma partida, profissional ou não, quando um atleta cai sem contato físico e não responde aos estímulos, a suspeita de parada cardíaca deve ser imediata. O atendimento precisa começar ainda no gramado, com acionamento da equipe médica, compressões torácicas e uso do desfibrilador externo automático, o DEA, se indicado.

Para a doutora Selma, o tempo é o principal fator para o sucesso do atendimento. “A cadeia de sobrevivência na parada cardíaca é um elo onde o tempo é o fator primordial para o sucesso da ressuscitação cardiopulmonar. A cada minuto sem reanimação cardiopulmonar e desfibrilação precoce, as chances de sobrevivência diminuem significativamente”, afirma.

O DEA analisa o ritmo cardíaco, orienta o atendimento por comandos de voz e só libera o choque quando necessário. Por isso, além da presença do equipamento, é essencial que as equipes estejam treinadas para identificar rapidamente a parada e iniciar a ressuscitação.

A discussão iniciada no futebol também ajuda a ampliar o olhar para outros espaços de grande circulação. Em Mato Grosso do Sul, a legislação estadual obriga a presença de desfibriladores em locais como estádios, ginásios, shopping centers, aeroportos, rodoviárias, instituições de ensino superior, clubes e academias. O Brasil, porém, ainda não tem uma lei federal unificada sobre o tema.

A capacitação também faz diferença. Cursos como o ACLS, de Suporte Avançado de Vida em Cardiologia, preparam médicos e outros profissionais de saúde para reconhecer e tratar emergências cardiovasculares graves, com diagnóstico de arritmias, uso correto do desfibrilador, manejo das vias aéreas, medicamentos e trabalho em equipe durante a ressuscitação, mas existem também cursos de Suporte Básico de Vida que ensinam como iniciar a ressuscitação cardiopulmonar e operar um DEA, que possui versão para pessoas interessadas em se tornar socorristas leigos, além de versão para profissionais da saúde.

“Na prática, isso significa decisões mais rápidas, atendimento mais eficiente e maiores chances de sobrevivência”, pontua a doutora.

Fora dos gramados, a orientação também vale para qualquer pessoa que presencie uma emergência: chamar o SAMU pelo 192, pedir um DEA, se houver disponível, e iniciar compressões fortes e rápidas no centro do peito até a chegada do socorro.

“Não tenha medo de agir. Ligue para o SAMU e comece imediatamente as compressões no centro do tórax. Em uma parada cardíaca, cada minuto conta, e uma pessoa comum pode fazer toda a diferença até a chegada do socorro”, orienta.

 

 


 

 

Sobre a CoreHelp

A CoreHelp Educação e Saúde é uma escola  sul-mato-grossense de educação em saúde especializada em treinamentos para emergências clínicas, trauma e cenários de alta complexidade assistencial. Desde 2019, atua na formação de profissionais e equipes que precisam tomar decisões críticas com rapidez, precisão e segurança, reunindo expertise técnica, metodologias práticas e diretrizes alinhadas aos principais protocolos nacionais e internacionais.

Com mais de 6 mil profissionais capacitados, a Core Help detém credenciais internacionais exclusivas em Mato Grosso do Sul. É o único Training Site da American Heart Association (AHA) no Estado e núcleo oficial de certificações como ATLS®, PHTLS® e AMLS®. Sua atuação combina protocolos baseados em evidências científicas, simuladores de alta fidelidade e um corpo de instrutores em atualização permanente, atendendo profissionais de nível técnico e superior, hospitais, UPAs, SAMU e equipes corporativas.