TRAGÉDIA ANUNCIADA NA PED: CAIXA D’ÁGUA CAI, PROVAS DESAPARECEM E O ESTADO SE CALA

Jeferson Bezerra DRT 764/MS

TRAGÉDIA ANUNCIADA NA PED: CAIXA D’ÁGUA CAI, PROVAS DESAPARECEM E O ESTADO SE CALA

Na Penitenciária Estadual de Dourados (PED), até caixa d’água despencando pode virar “simples vazamento”. Basta não fazer muitas perguntas. Foi assim que o desabamento ocorrido em 18 de dezembro de 2024 entrou para a lista dos fatos que o poder público prefere empurrar para baixo do tapete.
Naquele dia, a estrutura provisória de armazenamento de água cedeu. Ao lado dela, haviam sido instaladas duas caixas d’água de cerca de 20 mil litros cada, posicionadas diretamente sobre a laje, sem base adequada ou reforço estrutural conhecido. O resultado foi previsível: colapso, danos ao prédio e risco real à vida dos servidores. Três policiais penais ficaram feridos e sofreram traumas. Oficialmente, porém, nada fora do comum. Apenas um vazamento.
As novas imagens e fotografias, obtidas sob segredo de fonte, desmontam essa versão confortável. O que aparece não é goteira nem cano estourado. É falha estrutural grave, daquelas que exigem isolamento imediato da área, perícia técnica, bombeiros no local e investigação rigorosa. Nada disso aconteceu.
Na época, a unidade estava sob o comando de Khristian André Ribeiro Negri, então diretor-adjunto da PED. O diretor titular, Rangel Schveiger, constava oficialmente de férias. Servidores ouvidos pela reportagem, no entanto, afirmam que ele esteve no local após o desabamento. A visita não virou relatório, não gerou despacho e não aparece em lugar algum dos autos.
A obra que antecedeu o desastre também chama atenção. Não havia ART, não havia autorização da AGESUL e não havia respaldo técnico formal. Ainda assim, a intervenção ocorreu dentro de uma penitenciária, onde improviso costuma cobrar caro. O rigor técnico, ao que tudo indica, ficou para depois — ou foi ignorado.


Quem espera que, diante de um colapso estrutural em prédio público, Corpo de Bombeiros, Defesa Civil ou perícia da Polícia Civil tenham sido acionados, pode se frustrar. Ninguém foi chamado. Ninguém apareceu. Ninguém periciou nada. A estrutura caiu, mas os protocolos permaneceram intactos — ao menos no discurso.
Para completar o quadro, provas desapareceram. Imagens de câmeras internas e registros fotográficos feitos logo após o ocorrido teriam sido apagados, segundo relatos consistentes. Sem imagens, sem laudo e sem perícia, sobra apenas a narrativa oficial — aquela mesma do “vazamento”.


Passados meses, a Corregedoria da AGEPEN/MS segue em silêncio. Não há relatório conclusivo, não há nomes apontados, não há responsabilização. O caso vai sendo empurrado para o conhecido limbo burocrático, onde episódios incômodos costumam desaparecer.
Até agora, ninguém errou, ninguém é responsável, ninguém viu nada. O Estado, quando provocado, faz o que tem feito com eficiência: se cala. Enquanto isso, servidores seguem trabalhando sob estruturas que já deram sinais claros de falha, e internos permanecem confinados em um ambiente onde até o concreto parece não suportar o peso da negligência.
No fim das contas, fica a pergunta que insiste em não calar:


quantas caixas d’água ainda precisam cair para que alguém resolva aparecer?
Porque, pelo visto, enquanto apenas a verdade desaba, tudo continua funcionando normalmente — como se fosse só mais um vazamento.