Diligência em Figueirão revela cenário de exploração de trabalho em fazenda

Uma operação de combate ao trabalho escravo, realizada no início deste mês, culminou no resgate de 15 paraguaios submetidos a condições degradantes na fazenda São Miguel, zona rural do município de Figueirão.

Diligência em Figueirão revela cenário de exploração de trabalho em fazenda
Acordo com empregadores prevê pagamento de verbas rescisórias, FGTS e danos morais às vítimas e à sociedade

A ação conjunta do Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso do Sul (MPT-MS), da Fiscalização do Trabalho, da Polícia Militar Ambiental e da Polícia do MPU identificou um cenário de exploração laboral vinculado ao tráfico de pessoas e à extração manual de madeira para biomassa. 

O grupo foi encontrado vivendo em barracos de lona improvisados, uma vez que os contêineres disponíveis na fazenda eram insuficientes para abrigar todos, e as suas condições de trabalho incluíam ausência de registro formal, falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), inexistência de infraestrutura básica de higiene e promessas não cumpridas de mecanização das atividades rurais. Além dos 15 resgatados, outros sete haviam deixado o local dias antes da fiscalização. Conforme relatos das vítimas, eles também eram submetidos às mesmas condições.  

Diante das irregularidades, o procurador do Trabalho Paulo Douglas Almeida de Moraes, que integrou a força-tarefa, propôs a formalização de um acordo extrajudicial com representantes da propriedade rural, da Cooperativa de Produção Agroflorestal (Coopergreen), que arrendava a área, e da empresa Império Biomassas, responsável direta pela contratação dos estrangeiros, no intuito de corrigir situações que colocavam em risco a integridade e a segurança dos empregados, assim como de garantir que os envolvidos não reincidam nas práticas exploratórias. 

A adesão ao Termo de Ajuste de Conduta ocorreu no último dia 9, perante a Vara do Trabalho de Ponta Porã, e prevê o pagamento imediato de aproximadamente R$ 100 mil em verbas rescisórias e registros retroativos de 16 paraguaios, além de indenização por danos morais individuais em torno de R$ 32 mil para cada trabalhador. Também restou estabelecida indenização por dano moral coletivo no montante de quase R$ 260 mil, que será posteriormente revertida a projetos de cunho social. Adicionalmente, a empresa Império Biomassas se comprometeu a efetuar o recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), devido aos trabalhadores, com pagamento de multa correspondente a 40% sobre os valores retroativos.  

O acordo ainda impõe obrigações de conduta para evitar reincidência, como a proibição de manter trabalhadores em condições degradantes, a garantia de alojamentos adequados com camas e armários individuais, a disponibilização de instalações sanitárias, locais de refeição e água potável, além do fornecimento gratuito de EPIs e treinamento para uso de máquinas. 

O descumprimento de qualquer cláusula sujeitará os compromissários a multas calculadas conforme a gravidade da infração e o número de trabalhadores prejudicados, podendo ser dobradas em caso de morte ou lesão grave. No caso de inadimplência das obrigações financeiras, haverá vencimento antecipado das parcelas e multa de 100% sobre o valor remanescente.  

Suporte especializado e efetividade das ações

A denúncia da existência de trabalho degradante na fazenda São Miguel é resultado das atividades empreendidas pelo Núcleo de Inteligência Regional (NIR) do MPT-MS.

Oficialmente instituída no ano passado, a nova instância técnica foi criada para fortalecer a atuação finalística por meio da coleta, tratamento, interpretação, avaliação e análise de dados de diferentes fontes, visando a produção de conhecimento relevante e oportuno à tomada de decisões no âmbito do MPT-MS.

Referência processual: IC 000464.2026.24.000-4