Quinta, 28 de Janeiro de 2021
ARTIGO
Política não é profissão
Imagem: Assessoria
Publicado em 27/11/2020

Estamos na véspera do segundo turno das eleições municipais. Os vereadores e alguns prefeitos, já eleitos em primeiro turno, possuem um grande compromisso com os cidadãos que os elegeram. A "festa da democracia" por meio do voto é, na verdade, a procuração dada pela sociedade para um encargo muito sério, de alta responsabilidade. Felizmente, o eleitor brasileiro está cada vez mais crítico e exigente quanto ao desempenho dos políticos. Uma das principais marcas das recentes eleições foi a revolta e a indignação ganhando cada vez mais espaço na internet. Nos últimos tempos, a insatisfação popular parece ter contaminado toda a classe política. Não é de hoje que o nível de credibilidade dos brasileiros nos seus políticos é muito baixo.

Política tem que ter fiscalização e avaliação, não tem que ter fã-clube. Mas o ideal é que o preparo daquele que pretende ocupar um cargo de poder já tenha sido avaliado de perto pelo eleitor, na hora do voto. Ou seja, é preciso saber como é o candidato, fora do espaço político, na comunidade e no meio profissional. Afinal, político não é profissão. Vamos refletir?

Todas as pessoas têm sua história de vida pessoal e profissional. O sucesso, em qualquer área, só vem com esforço, dedicação, experiência, amadurecimento e boa vontade. Há candidatos, infelizmente, que não são profissionais dedicados e responsáveis nas suas áreas escolhidas, mas quando surge a oportunidade de concorrer a um cargo eletivo, interpretam a chance como sendo uma oportunidade de ascensão social. Um médico, um advogado, um engenheiro, todos têm sua atividade profissional reconhecida pela comunidade, desde que exercida de forma honesta e produtiva. Política deveria ser um ato de doação à sociedade, jamais um meio de ganhar a vida. Mas quando alguém ainda responde à pergunta "qual a sua profissão?" com "sou político!", isso representa todo um sistema equivocado.

Segundo Gaudêncio Torquato, consultor na área, em seu artigo "Política é Missão, Não Profissão", precisamos compreender que "a política não é um fim em si mesmo, mas sistema-meio para administrar as necessidades do povo. Aristóteles ensina que o cidadão deve servir à pólis visando ao bem comum. Ao se afastar dessa meta, dá lugar à corrupção, pois se desvia do objetivo e passa a governar de acordo com seus interesses. A política não deve ser escada para promover pessoas ou facilitar negócios. O sistema político desenvolve a capacidade de responder a aspirações, transformar expectativas em programas, coordenar comportamentos coletivos e recrutar para a vida pública quem deseja cumprir missão social."

No entanto, os chamados "políticos profissionais" tendem a formar uma casta, distante das preocupações do povo. Tratar política como profissão significa: privilégios fora da realidade e aumentos salariais injustificáveis, aposentadorias especiais e mandatos que se perpetuam, de reeleição em reeleição, sem que isso signifique um ganho real para os cidadãos em melhoria de serviços públicos (saúde, segurança, educação etc). É só lembrar que pagamos pelos políticos que estão entre os mais caros do mundo (e não tem desconto, nem "Black Friday", pelo contrário, só aumenta o preço), mas com índices de escolaridade e violência urbana dos mais tristes do mundo. Gastamos muito com política e recebemos muito pouco de volta. É uma conta que não fecha. Para o cidadão contribuinte é um péssimo negócio. Tem como reclamar pelo código de defesa do consumidor? Eu não sei porque nos chamam de "contribuintes", pois se o imposto não fosse obrigatório, garanto que quase ninguém iria querer "contribuir".

E por falar em conta que não fecha, ainda nas palavras de Torquato, temos um grande questionamento acerca das grandiosas campanhas eleitorais brasileiras (que sabemos envolver grandes quantias de dinheiro). É uma lamentável constatação, sabermos que ainda "poucos se elegem com somas pequenas. Se a campanha política é tão dispendiosa e se candidatos gastam mais do que ganham, por que o empenho para assumir a sacrificada missão de servir ao povo? Ou há muito desvio entre o espírito cívico de servir e o sentido prático de se servir?"

De outra sorte, há muitos cidadãos de bem, que batalharam durante suas vidas para progredirem profissional e socialmente, com muita ética, integridade e competência, mas estes não colocam seus nomes para concorrer nas eleições, afinal, política "não é coisa de gente séria e honesta", dizem os sérios e honestos. No entanto, esse pensamento precisa ser mudado, e os bons profissionais e cidadãos decentes participarem mais do universo da política, já que as decisões que eles tomam afetam a vida de todos nós, queiramos ou não. Ou continuaremos a ser governados pelos políticos profissionais, com desempenho lamentável, como já sabemos (corrupção e incompetência na administração dos nossos recursos públicos).

De nada adianta querer ser apolítico. Tem muita gente boa que poderia contribuir muito com suas ideias e com seu trabalho. Mas, infelizmente, o que temos hoje, com esta "profissionalização da política", é um sistema que permite a ascensão de políticos sem caráter, sem serventia e sem propósito benéfico para a sociedade.

Encerrando a nossa opinião, transcrevo a conclusão do artigo de Gaudêncio, explicando muito resumidamente o caminho que desvirtua a política brasileira para um dos "negócios" mais lucrativos do país: "primeiro, conquista-se o mandato; a seguir, a política vira instrumento de intermediação no mercado de 27 Estados (com o DF). São estruturas, cargos e posições nas esferas federal, estadual e municipal. Um PIB informal constituído por recursos extraídos das malhas da administração nas três instâncias federativas. Sanguessugas predadoras escondem-se em parcela do corpo político para sugar as veias do Estado brasileiro."

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*O autor é analista judiciário, pós-graduado em direito público e eleitor no Rio Grande do Sul

Por: Rodolpho Barreto
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